S I S T E M A P O É T I C O

_______________________________________________________
Textos selecionados dentre os autores mais interessantes do Sistema
Mostrando postagens com marcador Charles Baudelaire. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Charles Baudelaire. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Flores do Mal

Julieta, Juliana e Natasha, Paraty - RJ.


V
As réprobas

Como um gado pensando e nas areias deitadas,
Voltam os olhos seus ao mais longe do mar,
E seus próximos pés e suas mãos coladas
Têm langor de sorrir e tremor de chorar.

Umas, o coração cheio de confidência,
Num bosque em que a cantar os ribeiros se movem,
Vão soletrando o Amor da ingênua adolescência,
O ramo a descascar de algum arbusto jovem;

Outras são como irmãs, andam lentas e flavas,
Das rochas através, plenas de aparições,
Onde viu Santo Antão arderem como lavas
Os rubros seios nus de suas tentações;

Outras há que ao fulgor da líquida resina,
No silêncio abissal de velho antro pagão,
Chamam para aliviar a febre que alucina
Baco, o deus que adormece o remorso e a ilusão!

E outras cuja garganta ama os escapulários,
Sabem em sua roupa um chicote esconder,
E misturam na noite, em bosques solitários,
As lágrimas da dor e a espuma do prazer.

Ó monstros do martírio, ó sombras virginais!
Almas a desprezar a pobre realidade,
Com sexo e devoção, o infinito buscais,
Estrangulada a voz de lamento e saudade,

Que na cripta infernal tanto buscou minha alma,
Pobres irmãs a um tempo eu vos amo e respeito
Por vossa sede em vão e por vossa dor calma,
E estas urnas de amor que vos enchem o peito.


Charles Baudelaire [1821-1867]

Poema do livro As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal), lançado originalmente em 1857, em Paris. Seis poemas originais do livro foram alterados, devido à intervenção do poder público, que o acusou de "ultrajar a moral pública", multando-o em 300 francos.