S I S T E M A P O É T I C O

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Textos selecionados dentre os autores mais interessantes do Sistema

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

QUARTO CRESCENTE


Ainda sou o cavalo selvagem
que tu sabias que eu era
ainda tenho essa lua de feitiço
me brilhando nas entranhas 
e esses olhos de animal
à espreita.

Carrego ainda esse sentido estranho
nessa trama intrincada dos instintos.
No prazer e no perigo o meu contágio
desenfreada a minha liberdade
vem do sangue o meu conhecimento
salgado como o suor.

Ainda sou da mesma lâmina de aço
que te recorta o corpo. Do mesmo brilho
azul que te fascina. Da mesma fúria desmedida
de derrubar as cercas. E trago ainda as mesmas marcas
o mesmo gosto, o mesmo cheiro feroz
de terra e mato.

Ainda a mesma paixão me uiva dentro
quando é noite de verde e desespero.



Bruna Lombardi
[do livro "No Ritmo Dessa Festa]









https://www.facebook.com/brunalombardioficial

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

São os rios



Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa.


Jorge Luis Borges, escritor argentino

Trad. Pepe Escobar

terça-feira, 18 de junho de 2013

SUTILÍSSIMO ETERNO



Sutilíssimo eterno que habita
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado

sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra

que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível

sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto

se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?



                                  César Leal 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Poema de Graciliano Ramos





Auto-retrato aos 56 anos


Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n.º 41.
Colarinho n.º 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu "Caetés" com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
É ateu. Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia. Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros "Selma" (três maços por dia).
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”.
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-lhe indiferente estar preso ou solto.
Escreve à mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer com 57 anos.


Graciliano Ramos faleceu em 1953, aos 60 anos.

Direitos autorais: Creative Commons - CC BY 3.0

quarta-feira, 20 de março de 2013

[desvirtual provisório]


Poemas de Wellington de Melo


[A proto-M@quina]


[DOR]

antes do tempo
essa dor
que me rasga o estômago
que me acompanha
latente

a dor
de existir
insistente

a dor
de não
querer
a dor
mínima dor
de ser outro
de servir
apenas
a dor
que me querem
dor

essa dor:
mínima dor
da lucidez


[BOA VONTADE]

não alimenta
a paz
minha pena

é no caos
que borbulha
o líquido essencial
ferida aberta
açoite
que me faz
letra.



[A M@quina]


[LEVIATÃ]

"Bellum omnia omnes."

penso-te, M@quina,
Leviatã de meu tempo,
amada opressora,
esmagando naus cibernéticas
que persistem no sonho.

porque nos destruímos
te queremos.
& seguimos,
nave à deriva,
sob teu olhar
cinzento.

porque j@ não somos
te despertamos,
& desperta
nos enganas:
teu signo não é outro
senão o Caos.


Do livro [desvirtual provisório], Wellington de Melo, 2008.

domingo, 10 de março de 2013

GARÇA




A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.


Manoel de Barros
Do livro "Poemas Rupestres", 2007.

O MURO


Fotografia de Isidro Vila Verde


O menino contou que o muro da casa dele era
da altura de duas andorinhas.
(Havia um pomar do outro lado do muro.)
Mas o que intrigava mais a nossa atenção
principal
Era a altura do muro
Que seria de duas andorinhas.
Depois o garoto explicou:
Se o muro tivesse dois metros de altura
qualquer ladrão pulava
Mas a altura de duas andorinhas nenhum ladrão
pulava.
Isso era.


Manoel de Barros
Do livro "Poemas Rupestres", 2007.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Poemas de Antonio Cicero


Síntese

PAI MÃE
CÉU CHÃO
MÃE CÉU
PAI XÃO

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Nihil

nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu

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O fim da vida

Conhece da humana vida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


Antonio Cicero
Compositor, Poeta, Filósofo
Do livro "Porventura"

Pelo Espaço Sideral




Ele não é dessa galáxia,
definitivamente.
Talvez exista em outra dimensão,
talvez não.
É possível que tenha sido
engolido
por um buraco negro,
absurdo,
ou seja feito de matéria negra
e eu não possa enxergar,
apesar de estar preenchendo
o espaço que me rodeia.
E se for aquela estrela
que brilha por mim de madrugada
é romântico,
mas pouco prático.
Eu busco o prático!
Busco a forma e a matéria,
e a união de mundos subjetivos
e habitáveis.


Flávia Marques
Excelente Poetisa!

http://luanaetrintaalmas.blogspot.com.br/

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Poema Suspenso Dentro do Recife




Moro no Alto Recife
libertário como todo nativo
de nuvens concretas que as cores sangram
num canto edificado
sem margens e rios
ruas me habitam sem medo
árvores abrem portas e janelas
e a cidade tem mais igrejas
do que as 365 igrejas da Bahia
todos os dias as formas ganham sonhos
a sorte é um poema experimental de Deus
nas paredes aéreas do meu bairro
antigo como a história de ontem
e o menino que fala por mim
na várzea urbana do meu cérebro
além deste lugar a cidade é uma festa
fabricada como um carnaval
e eu nunca escreverei sobre a tristeza
porque no Alto Recife onde moro
o mar se enche de céu
e o sol abraça todo mundo
sem hora marcada


Juareiz Correya
(da antologia Poesia Viva do Recife)

Juareiz Correya nasceu em Palmares-PE. Vive no Recife. É diretor editorial da Panamérica Nordestal e do site da editora. Organizou e publicou as antologias Poetas dos Palmares e Poesia Viva do Recife. Livros de Poesia: Americanto Amar América (2010), Coração Portátil, e-book (2011). Publica 03 blogs literários.

Poema do Beco




Que importa a paisagem,

a glória, a baía,

a linha do horizonte?


O que eu vejo é o beco.


Manuel Bandeira


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Irmãos


Aos meus irmãos que tanto amo!


Somos partes recortadas de um todo
que, um dia, foram nossos pais;
olhos de um, boca de outro,
e um jeito de falar que não há mais.

Meus companheiros, meus irmãos,
o meu esteio;
nos embalaram as mesmas mãos,
o mesmo seio,
somos os frutos de um amor já existido;

Não penso em nada
sem vocês virem primeiro,
são por acaso o que eu
teria escolhido.


Flávia Marques, autodefinida "escritora, blogueira, professora de xadrex".
http://www.luanaetrintaalmas.blogspot.com.br


sábado, 8 de setembro de 2012

NO DIA DOS PAIS



Somente bons exemplos tu mostravas
Mesclados de bondade e carinho
Jamais na vida me senti sozinho
Pois onde eu estivesse tu estavas.

Além de pai eras um amigo
Herói das minhas tantas fantasias
Reduto imensurável de alegrias
A minha segurança,o meu abrigo

Contemplo hoje os teus cabelos brancos
Rugas marcantes de um tempo ido
E ambos, rimos um ao outro, francos.

Quero abraçar-te em plena alegria
Beijar-te a face, meu papai querido,
E homenagear-te no teu dia


28/julho/2012
Carlos Celso Uchoa Cavalcante

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Soneto do desmantelo azul




Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um Sul
vertiginosamente azul. Azul.



Carlos Pena Filho (Recife-PE, 1929-1960)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Poemas de Ondjaki



Prendisajem

o tomate avermelha mundos.
o cheiro da terra perdoa constipações.
folha é parede verde
para sol chegar.
flor é uma outra narina de abelha.
alcunha de qualquer jardim
é biolabirinto.
a exagera em
amizades com a merda.
o pirilampo é a lanterna do poeta.
o porco-espinho exagera em
modos de precaução e
a mandioca tuberculiza o chão.
...
o cheiro da terra rejuvenesce a humanidade.


Arve jánãoélógica

ser folha é
nem sempre estar para sol.
a outra folha
lém de nossa vizinha
pode ser nossa irmã de sombras.
a folha
enquerendo ser lago
acontinenta o galho.
o galho
ensendo fio de cabelo
gentifica a arve.
a arve
de tanto ser ela
lembra um sorriso quieto.
lém de transpirar
bonito é que ela respira.


Penúltima vivência

quero só
o silêncio da vela.
o afogar-me
na temperatura
da cera
quero só
o silêncio de volta:
infinituar-me
em poros que hajam
num chão de ser cera.


Ondjaki, Poeta Angolano, do livro "Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas)".

Poemas de Maiakóvski


Balalaica

Balalaica
[budto laiem oborvala
scrípki bala
laica]
[s laiem oborvala]
oborvala [s laiem]
[láiki bala]
láicu bala
laica

1913


Balalaica
[como um balido abala
a balada do baile
de gala]
[com um balido abala]
abala [com balido]
[a gala do baile]
louca a bala
laica

(Transcriação de Augusto de Campos)

Istchérpivaiuchaia Cartina Viesni

Listótchki.
Póslie strótchec lis
tótchki.

1913


Quadro Completo da Primavera

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.

(Transcriação: Augusto e Haroldo de Campos)

Iech ananáci

Iech ananáci, riábtchicov jui,
Dienh tvoi posliédnii prihódit, burjui.

1917

Come Ananás

Come ananás, mastiga perdiz.
Teu dia está prestes, burguês.

(Transcriação de Augusto de Campos)

Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893-1930), "o maior poeta russo moderno", segundo Haroldo de Campos.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poema de Millôr Fernandes


Toda noite aqui
Sol em vidas distantes
Que vejo e sigo
Na escuridão da insônia
Projeções infinitas
No avesso das pálpebras
Sem som e sem enredo
Gente silenciosa
Andando e andando
Em minha solidão
De esplendor e medo


Extraído do livro KAOS

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Saudade


Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Patativa do Assaré
[Antônio Gonçalves da Silva]

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poema de Millôr



Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros.


Millôr Fernandes
[Do livro "KAOS", sob o pseudônimo "Poetisa"]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dispersão



Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro –
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte –
Minha dispersão total –
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

Paris 1913 - Maio



Mário de Sá-Carneiro [1890-1916]