S I S T E M A P O É T I C O

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Textos selecionados dentre os autores mais interessantes do Sistema

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A um poeta



Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental [1842-1891]

Escritor português da Geração de 70.

Soneto



Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

Álvares de Azevedo

Este inferno de amar



Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...


Almeida Garrett [Porto, 1799 - Lisboa, 1854]

João Batista da Silva Leitão de Almeida, visconde de Almeida Garrett, poeta e dramaturgo português.

Soul Parsifal


Arte: Parsifal vor der Gralsburg, Hans Werner Schmidt

Ninguém vai me dizer o que sentir
Meu coração está desperto
É sereno nosso amor
E santo este lugar.

Dos tempos de tristeza
Tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar.

Porque foi calma a tempestade
Tua lembrança: a estrela a me guiar.
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar!

Tenho anis, tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim
E uma canção.
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo
E um coração.
Tenho coragem
E sei quem eu sou
Eu tenho um segredo
E uma oração.

Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar.

Estive cansado,
Meu orgulho me deixou cansado,
Meu egoísmo me deixou cansado,
Minha vaidade me deixou cansado.

Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer
O que sentir.

Tenho jasmim,
Tenho hortelã,
Eu tenho um anjo
Eu tenho uma irmã.
Com a saudade teci uma prece
Preparei erva-cidreira
No café da manhã.

Ninguém vai me dizer
O que sentir
E eu vou cantar
Uma canção pra mim.

Renato Russo [1960-1996]

A Minha Irmã



Depois que a dor, depois que a desventura
Caiu sobre o meu peito angustiado,
Sempre te vi, solícita ao meu lado,
Cheia de amor e cheia de ternura.

É que em teu coração ainda perdura,
Entre doces lembranças conservado,
Aquele afeto simples e sagrado
De nossa infância, ó meiga criatura.

Por isso aqui minh'alma te abençoa:
Tu foste a voz compadecida e boa
Que no meu desalento me susteve.

Por isso eu te amo, e, na miséria minha,
Suplico aos céus que a mão de Deus te leve
E te faça feliz, minha irmãzinha...

1913

Manuel Bandeira

Infância



Com mote de Maximiano Campos


Sem lei nem Rei, me vi arremessado
bem menino, a um Planalto pedregoso.
Cambaleando, cego, ao sol do Acaso,
vi o mundo rugir, Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle apontado
vinha malhar seu Corpo furioso.
Era o Canto, demente, sufocado,
rugido nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho; e foi despedaçado!
E veio o Sangue, o Marco iluminado,
a luta extraviada e a minha Grei!

Tudo apontava o Sol! Fiquei embaixo,
na Cadeia em que existe e em que me acho,
a sonhar e a cantar, sem lei nem Rei!

Ariano Suassuna

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Flores do Mal

Julieta, Juliana e Natasha, Paraty - RJ.


V
As réprobas

Como um gado pensando e nas areias deitadas,
Voltam os olhos seus ao mais longe do mar,
E seus próximos pés e suas mãos coladas
Têm langor de sorrir e tremor de chorar.

Umas, o coração cheio de confidência,
Num bosque em que a cantar os ribeiros se movem,
Vão soletrando o Amor da ingênua adolescência,
O ramo a descascar de algum arbusto jovem;

Outras são como irmãs, andam lentas e flavas,
Das rochas através, plenas de aparições,
Onde viu Santo Antão arderem como lavas
Os rubros seios nus de suas tentações;

Outras há que ao fulgor da líquida resina,
No silêncio abissal de velho antro pagão,
Chamam para aliviar a febre que alucina
Baco, o deus que adormece o remorso e a ilusão!

E outras cuja garganta ama os escapulários,
Sabem em sua roupa um chicote esconder,
E misturam na noite, em bosques solitários,
As lágrimas da dor e a espuma do prazer.

Ó monstros do martírio, ó sombras virginais!
Almas a desprezar a pobre realidade,
Com sexo e devoção, o infinito buscais,
Estrangulada a voz de lamento e saudade,

Que na cripta infernal tanto buscou minha alma,
Pobres irmãs a um tempo eu vos amo e respeito
Por vossa sede em vão e por vossa dor calma,
E estas urnas de amor que vos enchem o peito.


Charles Baudelaire [1821-1867]

Poema do livro As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal), lançado originalmente em 1857, em Paris. Seis poemas originais do livro foram alterados, devido à intervenção do poder público, que o acusou de "ultrajar a moral pública", multando-o em 300 francos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

[soneto]



Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-te, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperança me mantenho!
vede que perigosas seguranças:
que não temo contrastes nem mudanças
andando em bravo mar perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde
vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões

Cartas de amor



Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de
amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

Confronto



Bateu Amor à porta da Loucura.
"Deixa-me entrar - pediu - sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão."

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar."

Carlos Drummond de Andrade [1902-1987]

A Estrela



Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Manuel Bandeira [1886-1968]

"Coração, já repousavas..."



Coração, já repousavas,
já não tinhas sojeição,
já vivias, já folgavas;
Pois por que te sojugavas
outra vez, meu coração?

Sofre, pois te não sofreste
na vida, que já vivias;
sofre, pois te tu perdeste;
sofre, pois não conheceste
como t'outra vez perdias!

Sofre, pois já livre estavas
e quiseste sojeição;
sofres, pois te não lembravas
das dores de que escapavas,
sofre, sofre, coração!

Jorge de Aguiar [Séc. XV-XVI]

Pois nací nunca vi Amor



Pois nací nunca vi Amor,
e ouço del sempre falar.
Pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.

Pero nunca lh'eu fige ren
por que m'el haja de matar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gran med'en que me ten,
que me mostr'aquel matador,
ou que m'ampare del melhor.

Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del non amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gran medo que del hei,
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.

E pois Amor ha sobre mí
de me matar tan gran poder,
e eu non o posso veer,
rogarei mia senhor assí
que mi amostr'aquel matador,
ou que mi ampare del melhor.


Nuno Fernandes Torneol [século XIII]
Trovador Lusitano e Cavaleiro na corte do rei Afonso X de Leão e Castela.

[Cantiga de amor composta em Português Arcaico, ou Galaico-português]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Antologia Poética



Do eterno mistério

"Um outro mundo existe... uma outra vida..."
Mas de que serve ires para lá?
Bem como aqui, tu'alma atônita e perdida
Nada compreenderá...

* * * * * * * * * *
A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

* * * * * * * * * *
Hai-kai

Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?

* * * * * * * * * *
Outro princípio de incêndio

...a tua cabeleira feita de chamas negras...

* * * * * * * * * *
Sempre

Jamais se saberá com que meticuloso cuidado
Veio o Todo e apagou o vestígio de Tudo
E
Quando nem mais suspiros havia
Ele surgiu de um salto
Vendendo súbitos espanadores de todas as cores!

* * * * * * * * * *
Tristeza de escrever

Cada palavra é uma borboleta morta espetada na página:
Por isso a palavra escrita é sempre triste...

* * * * * * * * * *
Carreto

Amar é mudar a alma de casa.

* * * * * * * * * *
Elegia

Minha vida é uma colcha de retalhos,
todos da mesma cor...

* * * * * * * * * *
Do belo

Nada, no mundo, é, por si mesmo, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita neles o divino anseio
Da beleza suprema...

* * * * * * * * * *
Para escreveres num cartão postal

Ó céus de Porto Alegre,
Como farei para levar-vos para o Céu?!

* * * * * * * * * *
Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


Mario Quintana [1906-1994]
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"Só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades. É pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada. Só dá ministro." M.Q.

"Se Mario Quintana estivesse na ABL, não mudaria sua vida ou sua obra. Mas não estando lá, é um prejuízo para a própria Academia." Luís Fernando Veríssimo

"Não ter sido um dos imortais da Academia Brasileira de Letras é algo que até mesmo revolta a maioria dos fãs do grande escritor. A meu ver, títulos são apenas títulos, e acredito que o maior de todos os reconhecimentos ele recebeu: o carinho e o amor do povo brasileiro por sua poesia e pelo grande poeta e ser humano que ele foi..." Cícero Sandroni

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nuvem Passageira



Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer, vou me matar
Eu vou deixar em ti a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai


Hermes de Aquino
Publicitário, poeta, compositor, músico e cantor gaúcho, nascido em Rio Grande em 1949.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Eu Sou a videira

Arte: Del Parson



Eu Sou a videira verdadeira
e meu Pai é o lavrador.

Todo o ramo em mim
que não dá fruto, a tira
e poda todo aquele
que não dá fruto,
para que dê mais fruto.

Vós já estais podados
pela palavra que vos tenho falado.

Estai em mim e eu em vós;
como o ramo de si mesmo
não pode dar fruto,
se não estiver na videira,
assim também vós
se não estiverdes em mim.

Eu Sou a videira,
vós os ramos:
quem está em mim
e eu nele
esse dá muito fruto,
porque sem mim
nada podeis fazer.
(...)
Se vós estiverdes em mim
e as minhas palavras
estiverem em vós,
pedireis tudo o que quiserdes
e vos será feito.
(...)
Tenho vos dito isto
para que o meu regozijo
permaneça em vós
e a vossa alegria seja completa.

O meu mandamento é este:
que vos ameis uns aos outros,
assim como eu vos amei.

Ninguém tem maior
amor do que este:
de dar alguém a sua vida
pelos seus amigos.


Jesus, O Cristo [6 abril 01 a.C. - 33 a.D.]
Excertos do cap. 15 do livro de João, no Novo Testamento.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Do Trabalho

Arte: Ian Hornak

Vós trabalhais para manter o equilíbrio
com a terra e a alma da terra.
(...)
Quando trabalhais, sois uma flauta,
cujo coração o sopro das horas
transforma em música.
(...)
Sempre vos disseram que o trabalho
é uma maldição e a labuta uma infelicidade.

Mas eu vos digo que, quando trabalhais,
cumpris uma parte do sonho mais profundo
da terra, que vos foi designada
quando o sonho nasceu.
(...)
Amar a vida através do trabalho é
manter-se íntimo do maior segredo da vida.
(...)
Também vos disseram que a vida é escuridão,
e em vosso cansaço repetis o que foi dito
pelos que estão cansados.

E eu digo que a vida, realmente,
é escuridão, a não ser que haja necessidade,

E toda a necessidade é cega,
a não ser que haja conhecimento,

E todo o conhecimento é vão,
a não ser que haja trabalho,

E todo o trabalho é vazio,
a não ser que haja amor(...)

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com fios tirados
do vosso coração, como se vosso
bem-amado fosse usar aquele pano.

É construir uma casa com afeição,
como se vosso bem-amado
fosse viver naquela casa.

É impregnar todas as coisas
que gostais com o hálito
dos vossos próprios espíritos(...)

O trabalho é tornar o amor visível.


Khalil Gibran [1883-1931]
Excerto da obra-prima "O PROFETA", publicada originalmente em 1923.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

El Amor duerme en el pecho del Poeta



Tú nunca entenderás lo que te quiero
porque duermes en mí y estás dormido.
Yo te oculto llorando, perseguido
por una voz de penetrante acero.

Norma que agita igual carne y lucero
traspasa ya mi pecho dolorido
y las turbias palavras han mordido
las alas de tu espíritu severo.

Grupo de gente salta en los jardines
esperando tu cuerpo y mi agonia
en caballos de luz y verdes crines.

Pero sigue durmiendo, vida mía.
Oye mi sangre rota en los violines!
Mira que nos acechan todavía!

Federico García Lorca [1898-1936]
Extraído do livro "Sonetos del Amor Oscuro", 1936.
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O Amor dorme no peito do Poeta

Tu nunca entenderás quanto te quero
porque vives em mim, adormecido.
Por vozes de aço agudo perseguido,
dentro de mim, em pranto, eu te encarcero.

Norma que agita igual carne e luzeiro
traspassa já meu peito dolorido
e as túrbidas palavras têm mordido
as asas de teu ânimo severo.

Nos jardins gente aguarda entre boninas
teu corpo e minha angústia, a toda brida
em cavalos de luz e verdes crinas.

Continua a dormir, tu, minha vida.
Ouve meu sangue roto em notas finas!
Olha que nos espreitam sem medida!


Tradução: Afonso Félix de Sousa

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pescaria




Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
as mãos do mar pela areia
onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.

Cecília Meireles [1901-1954]

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(…) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano." Cecília Benevides de Carvalho Meireles

Nova Canção do Exílio



Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá
na palmeira, longe.

Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(um sabiá,
na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.

Carlos Drummond de Andrade [1902-1987]
Poeta, contista e cronista mineiro de Itabira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Junho



Eu sei que é Junho, o doido e gris seteiro
com seu capuz escuro e bolorento
as setas que passaram com o vento
zunindo pela noite no telheiro

Eu sei que é Junho, esse relógio lento
esse punhal de lesma, esse ponteiro,
esse morcego em volta do candeeiro
e o chumbo de um velho pensamento

Eu sei que é Junho, o barro dessas horas
o berro desses céus, ai, de anti-auroras
e essas cisternas, sombra, cinza, sul

e esses aquários fundos, cristalinos
onde vão se afogar mudos meninos
entre peixinhos de geléia azul

Alceu Valença

Corroendo



Ando a roer-me em desejo
Roer-me como unhas que não param de crescer
Como se ratos suicidas
Corro a roer
Corroer
Os farelos que inda restam de ti...


Renata Santana
Poeta e membro do grupo literário Dremelgas

[Poema publicado na antologia "Cem Poetas Sem Livros", org. por Cristiano Jerônimo]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O guardador de rebanhos



(...)
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.

8-3-1914

Alberto Caeiro
[excerto do poema]

Tabacaria



(...)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

15-1-1928

Álvaro de Campos
[excerto do poema]

"Para ser grande..."



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

14-2-1933

Ricardo Reis

Lua Negra



com o beijo da serpente
mordo profundamente
a jugular da tua alma

instilo o medo da morte
no mistério do teu sangue
lá onde anseias liberdade

sou Lilith revoltosa
súcubo desejosa
dos sonhos dos filhos de Eva

Dashnavar que te suga
pelo solado dos pés
roubando-te a realidade

sou Lamia, sou jararaca
teu filho chupa minha cauda
enquanto sugo teu leite

retorno do mundo dos mortos
entoando macabro coral
junto às crianças da noite

túmulos gradeados
por baixo da lua cheia
será que me deterão?


Gerusa Leal
[extraído de "Versilêncios", 2008]

"A poetisa consegue evitar a armadilha do psicologismo, sem abrir mão do conteúdo afetivo e da forte tensão emocional que inspira a escrita poética. A sua maneira para lidar com essa tensão foi, a meu ver, praticar uma poesia metafísica que tem ao mesmo tempo um tom sinceramente lírico. Por isso, o seu lirismo tem a particularidade de não ser somente a expressão de um Eu, mas também, e sobretudo, a elucidação do enigma do Eu. Seria algo como um lirismo objetivo, uma postura pela qual a poetisa toma a sua própria consciência como objeto, e ao mesmo tempo tenta se reapropriar dela: busca impossível, pois o objeto poético último é uma flor de gelo, uma flor mineralizada, desvitalizada. O poema perfeito é a morte." Stéphane Chao

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Poema de "Boca do Inferno"



1

Que falta nesta cidade? ..................Verdade.
Que mais por sua desonra? ............Honra.
Falta mais que se lhes ponha? ........Vergonha.

O demo a viver se exponha
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

2

Quem a pôs no socrócio? ................Negócio.
Quem causa tal perdição? ..............Ambição.
E o maior desta loucura? ................Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe o que perdeu
Negócio, ambição, usura.


Gregório de Matos [1636-1695]

"É considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em Língua Portuguesa."

Nu espelho

Foto: Nicola Bombassei

É preciso sim
resistir:
por sobre os campos
os mares

as ruas

as calçadas

procurar a nota mágica
vinda de outras flautas
outros tempos
redescobrindo o nada
vazio mortal do salto
para a liberdade

azul

ninho da esperança

verde.


Chico de Assis
Escritor pernambucano

"A poesia de Chico de Assis nos fala sobre tudo o que diz respeito à vida, particularmente sobre questões sociais e políticas, porque se o homem é de fato um animal político, Chico de Assis é o animal político por excelência. Assim, na casa por ele erguida tudo cabe e tudo floresce: o amor, a paixão, a amizade, o seu país, a sua cidade, Recife, os seus amigos e o seu povo." Jaci Bezerra

Nossa atração



Nossa atração tem força inegável
Como um elo indestrutível
De uma origem inexplicável
E de um mistério indefinível

Nossa atração é inevitável
De caráter imprescindível
Possui beleza irrefutável
E grandeza indescritível

É segredo nunca antes desvendado
Por trás de um desejo incoerente
Um testamento infundado
Mas de uma certeza eloqüente...

Paradoxo inimaginável
De contestação proibida
Possui encanto inquestionável
Que transcende o amor e a vida!


Kel Rodrigues
Fonte: http://kelzinharodrigues.blogspot.com/

Ismália



Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens [1870-1921]

"A poesia de Alphonsus de Guimaraens é marcadamente mística. Seus sonetos apresentam uma estrutura clássica, e são profundamente religiosos e sensíveis na medida em que ele explora o sentido da morte, do amor impossível, da solidão e da inaptação ao mundo.
O tom místico imprime em sua obra um sentimento de aceitação e resignação diante da própria vida, dos sofrimentos e dores. Outra característica marcante de sua obra é a utilização da espiritualidade em relação à figura feminina que é considerada um anjo, ou um ser celestial.
Sua obra, predominantemente poética, consagrou-o como um dos principais autores simbolistas do Brasil."
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Alphonsus_de_Guimaraens)

Vi uma foto de Anna Akhmátova



Vi uma foto de Anna Akhmátova,
numa oferta de segunda mão
em livraria de terceira
fechando as portas também baratas
em liquidação de quarta despedida
dos leitores de páginas impressas
à tinta das antigas tipografias
condenadas aos museus,
setor dos tipos móveis de Gutemberg
que não mais importa.
(...)
Vi essa foto da russa séria
olhando debaixo da franja
diretamente para a lente da câmara
como se olhasse para o futuro
abandonado pelo deus primevo.
(...)
Este poema se lembra, tenta se lembrar
de tanta coisa que, então,
não pode aspirar a ser como
um polido cristal de Tamara de Lempicka.
(...)
Este poema pertence ao domingo
"que outrora recorda"
como se acordasse com a sonata
ao piano do sono no meio da rua:
não lhe dizem o que está fazendo ali,
que rosto tem num vidro partido
e porque sonhou que estava perdido
num museu de quinquilharias,
cercado de caixas de música
e o silêncio do fim.

Fernando Monteiro
Poeta, crítico e romancista pernambucano

"(...) toda a sua admirável trajetória poética é tão singular e erudita quanto a sua atividade de crítico e escritor. Não conheço, no Brasil, alguém que possa disputar com FERNANDO MONTEIRO um lugar na literatura de nosso tempo." Francisco Brennand

Língua Portuguesa



Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac [1865-1918]
"A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo."

Imagens



Tua dança

Do ventre

Imaginária

Me provoca

Sérios arrepios.


Teus seios

Tal flechas

Miram

Meus olhos

Fixos

De cristal.


Teu galopar

Da utopia

É o martelo

Alagoano

Que a baiana

Nos mandou

De Maceió.


Cristiano Jerônimo [Poeta e jornalista pernambucano]
http://cristianojeronimo.blogspot.com/

"Há na intimidade um limiar sagrado"



Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor –
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


Anna Akhmátova [1889-1966]
Poeta e tradutora Russa
[poema retirado da antologia "Só o sangue cheira a sangue", tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 2000]

Grandeza de Flor



Percebo dolorosa

e tão ridente

que sou eu

maior que a vida

e não sou nada.


Jacqueline Torres
Poeta e contista pernambucana nascida no Sertão
"A arte da palavra é a minha forma, seja certa ou imprecisa, eu escrevo." J.T.
http://jacquelinets.blogspot.com

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Versos escritos n'água



Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.

Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...

Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.


Manuel Bandeira [1886-1968], em "A Cinza das Horas", 1917

"Alma minha gentil..."



Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís Vaz de Camões [c. 1524-1580]

"Maior expoente da poesia em Língua Portuguesa e um dos maiores gênios da Literatura mundial." César dos Anjos

"Abstratizar a matéria"



"Abstratizar a matéria
ou materializar o abstrato
é a forma de, toda vaidosa,
a arte posar para um retrato
que a revele, sem fantasia,
como de Deus a última cria,
neste espaço sem extensão
do Infinito, e na Eternidade,
este tempo sem duração;
e sua vaidade? vai findar
estátua submersa no mar."


Alberto da Cunha Melo [1942-2007]
Poeta, jornalista e sociólogo, de Jaboatão-PE.

O Livro e a América

Foto: César dos Anjos

(...)
Filhos de séc'lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro - esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a igualdade voou!...
(...)
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.

Vós, que o templo das idéias
Largo - abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
- Ginete dos pensamentos,
- Arauto da grande luz!...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...


Castro Alves [1847-1871], em "Espumas Flutuantes".

"(...) em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse(...) tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens. Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar". Excerto do poema "Castro Alves do Brasil", de Pablo Neruda, poeta chileno.

"Autor mais profícuo e gênio da Poesia no Brasil." César dos Anjos

Seus Olhos

Modelo: Yulia Sindzeyeva

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa - mais doce que o nauta
De noite cantando -, mais doce que a frauta
Quebrando a solidão.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto umedece,
Me fazem chorar.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.


Gonçalves Dias [1823-1864]

"(...)uma das mais mimosas composições líricas que tenho lido na minha vida." Alexandre Herculano

"Gonçalves Dias é o poeta nacional por excelência: ninguém lhe disputa na opulência da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brasileira e dos seus costumes selvagens" José de Alencar

"A poesia nacional cobre-se(...) de luto. Era Gonçalves Dias o seu mais prezado filho, aquele que de mais louçania a cobriu. Morreu no mar-túmulo imenso para talento. Só me resta espaço para aplaudir..." Machado de Assis

"Leve, breve, suave"



Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Fernando Pessoa [1888-1935]
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"Embora pareça complexo, o poema é bastante simples no seu significado:

Pessoa não consegue sentir e gozar as coisas de maneira simples. Não consegue ter prazer nas coisas, porque pensa logo da perda das mesmas, racionaliza-as demasiado. É esta complexidade da sua mente, do seu raciocínio que prejudica (que cala) o que é Natural. A ave calou-se (metaforicamente) por causa da intrusão do raciocínio de Pessoa.
O poema é uma metáfora sobre a oposição entre Natureza e Pensamento, entre o que é Natural e o que é Humano (pensado)."

Explicação extraída do site: O Major Reformado