S I S T E M A P O É T I C O

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Textos selecionados dentre os autores mais interessantes do Sistema

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

QUARTO CRESCENTE


Ainda sou o cavalo selvagem
que tu sabias que eu era
ainda tenho essa lua de feitiço
me brilhando nas entranhas 
e esses olhos de animal
à espreita.

Carrego ainda esse sentido estranho
nessa trama intrincada dos instintos.
No prazer e no perigo o meu contágio
desenfreada a minha liberdade
vem do sangue o meu conhecimento
salgado como o suor.

Ainda sou da mesma lâmina de aço
que te recorta o corpo. Do mesmo brilho
azul que te fascina. Da mesma fúria desmedida
de derrubar as cercas. E trago ainda as mesmas marcas
o mesmo gosto, o mesmo cheiro feroz
de terra e mato.

Ainda a mesma paixão me uiva dentro
quando é noite de verde e desespero.



Bruna Lombardi
[do livro "No Ritmo Dessa Festa]









https://www.facebook.com/brunalombardioficial

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

São os rios



Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa.


Jorge Luis Borges, escritor argentino

Trad. Pepe Escobar

terça-feira, 18 de junho de 2013

SUTILÍSSIMO ETERNO



Sutilíssimo eterno que habita
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado

sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra

que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível

sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto

se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?



                                  César Leal 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Poema de Graciliano Ramos





Auto-retrato aos 56 anos


Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n.º 41.
Colarinho n.º 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu "Caetés" com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
É ateu. Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia. Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros "Selma" (três maços por dia).
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”.
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-lhe indiferente estar preso ou solto.
Escreve à mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer com 57 anos.


Graciliano Ramos faleceu em 1953, aos 60 anos.

Direitos autorais: Creative Commons - CC BY 3.0

quarta-feira, 20 de março de 2013

[desvirtual provisório]


Poemas de Wellington de Melo


[A proto-M@quina]


[DOR]

antes do tempo
essa dor
que me rasga o estômago
que me acompanha
latente

a dor
de existir
insistente

a dor
de não
querer
a dor
mínima dor
de ser outro
de servir
apenas
a dor
que me querem
dor

essa dor:
mínima dor
da lucidez


[BOA VONTADE]

não alimenta
a paz
minha pena

é no caos
que borbulha
o líquido essencial
ferida aberta
açoite
que me faz
letra.



[A M@quina]


[LEVIATÃ]

"Bellum omnia omnes."

penso-te, M@quina,
Leviatã de meu tempo,
amada opressora,
esmagando naus cibernéticas
que persistem no sonho.

porque nos destruímos
te queremos.
& seguimos,
nave à deriva,
sob teu olhar
cinzento.

porque j@ não somos
te despertamos,
& desperta
nos enganas:
teu signo não é outro
senão o Caos.


Do livro [desvirtual provisório], Wellington de Melo, 2008.

domingo, 10 de março de 2013

GARÇA




A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.


Manoel de Barros
Do livro "Poemas Rupestres", 2007.

O MURO


Fotografia de Isidro Vila Verde


O menino contou que o muro da casa dele era
da altura de duas andorinhas.
(Havia um pomar do outro lado do muro.)
Mas o que intrigava mais a nossa atenção
principal
Era a altura do muro
Que seria de duas andorinhas.
Depois o garoto explicou:
Se o muro tivesse dois metros de altura
qualquer ladrão pulava
Mas a altura de duas andorinhas nenhum ladrão
pulava.
Isso era.


Manoel de Barros
Do livro "Poemas Rupestres", 2007.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Poemas de Antonio Cicero


Síntese

PAI MÃE
CÉU CHÃO
MÃE CÉU
PAI XÃO

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Nihil

nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu

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O fim da vida

Conhece da humana vida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


Antonio Cicero
Compositor, Poeta, Filósofo
Do livro "Porventura"

Pelo Espaço Sideral




Ele não é dessa galáxia,
definitivamente.
Talvez exista em outra dimensão,
talvez não.
É possível que tenha sido
engolido
por um buraco negro,
absurdo,
ou seja feito de matéria negra
e eu não possa enxergar,
apesar de estar preenchendo
o espaço que me rodeia.
E se for aquela estrela
que brilha por mim de madrugada
é romântico,
mas pouco prático.
Eu busco o prático!
Busco a forma e a matéria,
e a união de mundos subjetivos
e habitáveis.


Flávia Marques
Excelente Poetisa!

http://luanaetrintaalmas.blogspot.com.br/

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Poema Suspenso Dentro do Recife




Moro no Alto Recife
libertário como todo nativo
de nuvens concretas que as cores sangram
num canto edificado
sem margens e rios
ruas me habitam sem medo
árvores abrem portas e janelas
e a cidade tem mais igrejas
do que as 365 igrejas da Bahia
todos os dias as formas ganham sonhos
a sorte é um poema experimental de Deus
nas paredes aéreas do meu bairro
antigo como a história de ontem
e o menino que fala por mim
na várzea urbana do meu cérebro
além deste lugar a cidade é uma festa
fabricada como um carnaval
e eu nunca escreverei sobre a tristeza
porque no Alto Recife onde moro
o mar se enche de céu
e o sol abraça todo mundo
sem hora marcada


Juareiz Correya
(da antologia Poesia Viva do Recife)

Juareiz Correya nasceu em Palmares-PE. Vive no Recife. É diretor editorial da Panamérica Nordestal e do site da editora. Organizou e publicou as antologias Poetas dos Palmares e Poesia Viva do Recife. Livros de Poesia: Americanto Amar América (2010), Coração Portátil, e-book (2011). Publica 03 blogs literários.

Poema do Beco




Que importa a paisagem,

a glória, a baía,

a linha do horizonte?


O que eu vejo é o beco.


Manuel Bandeira


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Irmãos


Aos meus irmãos que tanto amo!


Somos partes recortadas de um todo
que, um dia, foram nossos pais;
olhos de um, boca de outro,
e um jeito de falar que não há mais.

Meus companheiros, meus irmãos,
o meu esteio;
nos embalaram as mesmas mãos,
o mesmo seio,
somos os frutos de um amor já existido;

Não penso em nada
sem vocês virem primeiro,
são por acaso o que eu
teria escolhido.


Flávia Marques, autodefinida "escritora, blogueira, professora de xadrex".
http://www.luanaetrintaalmas.blogspot.com.br


sábado, 8 de setembro de 2012

NO DIA DOS PAIS



Somente bons exemplos tu mostravas
Mesclados de bondade e carinho
Jamais na vida me senti sozinho
Pois onde eu estivesse tu estavas.

Além de pai eras um amigo
Herói das minhas tantas fantasias
Reduto imensurável de alegrias
A minha segurança,o meu abrigo

Contemplo hoje os teus cabelos brancos
Rugas marcantes de um tempo ido
E ambos, rimos um ao outro, francos.

Quero abraçar-te em plena alegria
Beijar-te a face, meu papai querido,
E homenagear-te no teu dia


28/julho/2012
Carlos Celso Uchoa Cavalcante

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Soneto do desmantelo azul




Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um Sul
vertiginosamente azul. Azul.



Carlos Pena Filho (Recife-PE, 1929-1960)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Poemas de Ondjaki



Prendisajem

o tomate avermelha mundos.
o cheiro da terra perdoa constipações.
folha é parede verde
para sol chegar.
flor é uma outra narina de abelha.
alcunha de qualquer jardim
é biolabirinto.
a exagera em
amizades com a merda.
o pirilampo é a lanterna do poeta.
o porco-espinho exagera em
modos de precaução e
a mandioca tuberculiza o chão.
...
o cheiro da terra rejuvenesce a humanidade.


Arve jánãoélógica

ser folha é
nem sempre estar para sol.
a outra folha
lém de nossa vizinha
pode ser nossa irmã de sombras.
a folha
enquerendo ser lago
acontinenta o galho.
o galho
ensendo fio de cabelo
gentifica a arve.
a arve
de tanto ser ela
lembra um sorriso quieto.
lém de transpirar
bonito é que ela respira.


Penúltima vivência

quero só
o silêncio da vela.
o afogar-me
na temperatura
da cera
quero só
o silêncio de volta:
infinituar-me
em poros que hajam
num chão de ser cera.


Ondjaki, Poeta Angolano, do livro "Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas)".

Poemas de Maiakóvski


Balalaica

Balalaica
[budto laiem oborvala
scrípki bala
laica]
[s laiem oborvala]
oborvala [s laiem]
[láiki bala]
láicu bala
laica

1913


Balalaica
[como um balido abala
a balada do baile
de gala]
[com um balido abala]
abala [com balido]
[a gala do baile]
louca a bala
laica

(Transcriação de Augusto de Campos)

Istchérpivaiuchaia Cartina Viesni

Listótchki.
Póslie strótchec lis
tótchki.

1913


Quadro Completo da Primavera

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.

(Transcriação: Augusto e Haroldo de Campos)

Iech ananáci

Iech ananáci, riábtchicov jui,
Dienh tvoi posliédnii prihódit, burjui.

1917

Come Ananás

Come ananás, mastiga perdiz.
Teu dia está prestes, burguês.

(Transcriação de Augusto de Campos)

Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893-1930), "o maior poeta russo moderno", segundo Haroldo de Campos.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poema de Millôr Fernandes


Toda noite aqui
Sol em vidas distantes
Que vejo e sigo
Na escuridão da insônia
Projeções infinitas
No avesso das pálpebras
Sem som e sem enredo
Gente silenciosa
Andando e andando
Em minha solidão
De esplendor e medo


Extraído do livro KAOS

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Saudade


Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Patativa do Assaré
[Antônio Gonçalves da Silva]

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poema de Millôr



Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros.


Millôr Fernandes
[Do livro "KAOS", sob o pseudônimo "Poetisa"]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dispersão



Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro –
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte –
Minha dispersão total –
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

Paris 1913 - Maio



Mário de Sá-Carneiro [1890-1916]

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros -
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

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ADMIRATIONES


Aliquando, parvi magni terrae notus
occurrunt pectoris mei sinistro latere.

Floris, nihil percipiunt oscitantes.

Inter aortam et scapulas volvunt
debilitati sensus.

Inter vertebras et costas
diversae pressiones sunt.

Familiores
iam me viserunt ruinas remiscentem.
In me aliquid immobile et brutum est
in constante admiratione.

(Traduzido para o latim por Ana Theresa Vieira)



Affonso Romano de Sant'Anna

Fim-do-começo-do-fundo

Foto: Alisdair-Miller

Deixo-me
tenho os passos apressados
meto-me para o fim do mundo
e chego ao começo de mim

Bebo-me
até esvaziar-se todo o líquido
eu sou um fim que espera a desiludida
verdade do fundo dos copos

(ó quão inútil é o fim ou o fundo
das coisas e do âmago, quando
o ser temeroso se nos impõe
seu vulto fantasmagórico).


Rogério Generoso
Poeta, membro da Diretoria da União Brasileira de Escritores UBE, criador do Movimento Cultural Invenção de Poesia, vice-presidente do Centro Cultural Vital Corrêa de Araújo.

[Poema do livro NOUMENON, lançado em 2010]

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Poesia Visual


















Silvio Hansen

Soneto do Amor Total




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Vinícius de Moraes

"Amor..."




Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Camões

Canção do vento e da minha vida

Silvio Hansen, Poesia Visual


O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!

E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

Manuel Bandeira

[soneto]



Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de inconsciente
A qualquer mão noturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.


Fernando Pessoa

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Poeminha



Se queres
Te aproximar de mim
Primeiro
Procura me entender

Mas não
Me queiras mal
Se eu
Não me deixar entender

Pra me entenderes
Precisas entrar no meu EU

E se nem mesmo
Eu me entendo
Vai ter que haver
Muito boa vontade
Da tua parte
Se realmente quiseres
Te aproximar de mim

Também não sei
Se quero que se aproximem
Do meu EU

Talvez tenha medo
Que me descubram
Que me avessem
Que me desnudem

Acho melhor que desistas
Antes de tentar
Pois gostaria de ser
O que vives a imaginar

15-05-1980

Necy dos Anjos
Psicopedagoga e Professora, nascida em Recife-PE, em 1945.

sábado, 3 de abril de 2010

O desejo de sangue



Depois de um breve descanso,
já refeita da peleja em que feriu e matou,
a besta acordou,
pronta para uma nova jornada de ódio, cobiça e ranço.

Olhos injetados,
Hálito sepulcral,
Couro rachado,
Voz infernal.

Queria espalhar dores e sofrimentos.
[queria] empestar o mundo com tristezas e tormentos.
[queria] sufocar a paz, estimular atritos.
[queria] semear a intriga, colher gritos.

Queria ouvir o lamento dos exilados.
[queria ouvir] o arfar dos mutilados.
[queria ouvir] o pranto dos vencidos.
[queria ouvir] o suspiro dos foragidos.

Queria esmagar a felicidade.
[queria] festejar a maldade.
[queria] regar a terra com o sangue fresco das crianças.
[queria] salpicar o vento com o cheiro acre das matanças.

Ao léu escolheu um alvo no qual pudesse despejar sua sanha.
Um lugar no qual pudesse agir impune, sem manha.
Um povo no qual pudesse seu ódio cravar.
Um momento no qual pudesse ferir, massacrar, matar.


Alexandre Santos
[extraído do livro G'Dausbbah]

Pres. da União Brasileira de Escritores/UBE-PE; pres. do Clube de Engenharia; membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste/ALANE.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Haicais




IV
A coruja espera
no silêncio do espanto
a noite chegar.

VII
O século gira
pela encosta da montanha
nas ondas do vento.

XI
Se deténs a noite
no arcabouço das estrelas
libertas o dia.

XXX
Densa escuridão.
Bússolas de vaga-lumes
mostram os caminhos.

XXXI
O fio do tempo
tece a noite devagar
e assim anoitece.

LIII
Sobre o corpo rosas.
De espinhos adornou a cama.
Partiram as almas.

LX
Folheia-se o livro
sozinho nas entrelinhas
decifrando vidas.

LXIV
Se pedras dormentes
sonham com a permanência,
que dirão as pétalas?

LXX
Solfejam ruídos
na consumição do tempo
inventando luas.

LXXV
Solidão do tempo.
As mãos tateiam as trevas
construindo luas.


Telma de Figueiredo Brilhante
[extraídos do livro Sendas do Oriente - Haicais]

Professora, Orientadora de Pós-Graduação e Escritora. Membro da União Brasileira de Escritores/UBE-PE, da Academia de Letras e Artes do Nordeste/ALANE, do Grupo Literário Celina de Holanda e da Sociedade dos Poetas Vivos de Olinda/SPVO.

terça-feira, 23 de março de 2010

Aconselhado



Revisado como um livro
a ser escrito
ou um rascunho
transcrito em dias

Corrigido em conselhos
agraciado pelos
meus ouvidos

Escutei e
reaprendi...
sou um aluno
da doce vida


Leo Durval
Poeta e filósofo pernambucano

terça-feira, 9 de março de 2010

Minha Primavera



Eu gosto da primavera
Porque tem muitas flores
De todos os tipos
E todas as cores

Também as borboletas
Que são carinhosas
Muito bonitas
E muito dengosas

Durante a primavera
Os pássaros cantam
E brincam nas árvores
E a todos encantam

O mar ainda está frio
Começando a aquecer
O vento vem soprando
À noite e ao amanhecer

Escrevi sobre a primavera
Minha estação preferida
Nesta época eu nasci
E comecei minha vida

Nataly Caetano de Sá
[11 anos - Minha sobrinha]

segunda-feira, 8 de março de 2010

Alma de Mulher

Arte: Michael Garmash


Dos anjos as asas
Nos vôos poéticos
Dos versos que ensina
A compor sua graça.

Missiva dos sonhos
Perfume dos lírios
Coração para amar
Despertas qual sino
Sentimentos para cantar.

Molduras o amor
Na liberdade dos ventos.
Sua face de flores
É ternura que desperta amores.

Tens das abelhas
O tecer da doçura
Teu sorriso é laço
Adereço que enfeitiça.

Cântaro de águas refrescantes
Hidratas as outras almas
Dos ressequidos desencantos.

Pérola refugiada
No seio amante
É tu, alma de mulher,
Fulgor das cores
No matiz brilhante.


Jair Martins
Poeta e Tesoureira da UBE-PE

domingo, 7 de março de 2010

08 de março - Dia Internacional da Mulher

Minha homenagem às mulheres está descrita na forma de crônica, publicada no Blog César dos Anjos, com link a seguir:

http://cesardosanjos.blogspot.com/

Ou clique no título da crônica: O MISTÉRIO.
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quinta-feira, 4 de março de 2010

Louvor ao Estudo




Estuda o elementar: para aqueles
cuja hora chegou
não é nunca demasiado tarde.
Estuda o abc. Não basta, mas
Estuda. Não te canses.

Começa. Tens de saber tudo.
Estás chamado a ser um dirigente.
Freqüente a escola, desamparado!
Persegue o saber, morto de frio!

Empunha o livro, faminto! É uma arma!
Estás chamado á ser um dirigente.
Não temas perguntar, companheiro!
Não te deixes convencer!
Compreende tudo por ti mesmo.

O que não sabes por ti, não o sabes.
Confere a conta. Tens de pagá-la.
Aponta com teu dedo a cada coisa
e pergunta: "Que é isto? e como é?"
Estás chamado a ser um dirigente.

Bertolt Brecht

Eugen Berthold Friedrich Brecht: Poeta, dramaturgo e encenador alemão nascido em Augsburg, em 1898 e falecido em Berlim, em 1956.

O que é (Was es ist)



É absurdo
diz a razão
É o que é
diz o amor

É infelicidade
diz o cálculo
Nada além de dor
diz o medo
É vago
diz o juízo
É o que é
diz o amor

É ridículo
diz o orgulho
É leviano
diz a prudência
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor

Erich Fried [Viena, 1921 - Baden-Baden, 1988]

Poeta, tradutor, ensaísta, judeu e austríaco.

terça-feira, 2 de março de 2010

As Pombas




Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...


Raimundo da Mota de Azevedo Correia [1859-1911]

Juiz e Poeta brasileiro, nascido em São Luís, Maranhão, e falecido em Paris. Fundador da cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras.

A Uma Ausência



Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado:

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:

Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos espero estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como deserto.


Pe. António Vieira [1608-1697]
Religioso, escritor e orador português, nascido em Lisboa e falecido na Bahia.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A um poeta



Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental [1842-1891]

Escritor português da Geração de 70.

Soneto



Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

Álvares de Azevedo

Este inferno de amar



Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...


Almeida Garrett [Porto, 1799 - Lisboa, 1854]

João Batista da Silva Leitão de Almeida, visconde de Almeida Garrett, poeta e dramaturgo português.

Soul Parsifal


Arte: Parsifal vor der Gralsburg, Hans Werner Schmidt

Ninguém vai me dizer o que sentir
Meu coração está desperto
É sereno nosso amor
E santo este lugar.

Dos tempos de tristeza
Tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar.

Porque foi calma a tempestade
Tua lembrança: a estrela a me guiar.
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar!

Tenho anis, tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim
E uma canção.
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo
E um coração.
Tenho coragem
E sei quem eu sou
Eu tenho um segredo
E uma oração.

Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar.

Estive cansado,
Meu orgulho me deixou cansado,
Meu egoísmo me deixou cansado,
Minha vaidade me deixou cansado.

Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer
O que sentir.

Tenho jasmim,
Tenho hortelã,
Eu tenho um anjo
Eu tenho uma irmã.
Com a saudade teci uma prece
Preparei erva-cidreira
No café da manhã.

Ninguém vai me dizer
O que sentir
E eu vou cantar
Uma canção pra mim.

Renato Russo [1960-1996]

A Minha Irmã



Depois que a dor, depois que a desventura
Caiu sobre o meu peito angustiado,
Sempre te vi, solícita ao meu lado,
Cheia de amor e cheia de ternura.

É que em teu coração ainda perdura,
Entre doces lembranças conservado,
Aquele afeto simples e sagrado
De nossa infância, ó meiga criatura.

Por isso aqui minh'alma te abençoa:
Tu foste a voz compadecida e boa
Que no meu desalento me susteve.

Por isso eu te amo, e, na miséria minha,
Suplico aos céus que a mão de Deus te leve
E te faça feliz, minha irmãzinha...

1913

Manuel Bandeira

Infância



Com mote de Maximiano Campos


Sem lei nem Rei, me vi arremessado
bem menino, a um Planalto pedregoso.
Cambaleando, cego, ao sol do Acaso,
vi o mundo rugir, Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle apontado
vinha malhar seu Corpo furioso.
Era o Canto, demente, sufocado,
rugido nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho; e foi despedaçado!
E veio o Sangue, o Marco iluminado,
a luta extraviada e a minha Grei!

Tudo apontava o Sol! Fiquei embaixo,
na Cadeia em que existe e em que me acho,
a sonhar e a cantar, sem lei nem Rei!

Ariano Suassuna

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Flores do Mal

Julieta, Juliana e Natasha, Paraty - RJ.


V
As réprobas

Como um gado pensando e nas areias deitadas,
Voltam os olhos seus ao mais longe do mar,
E seus próximos pés e suas mãos coladas
Têm langor de sorrir e tremor de chorar.

Umas, o coração cheio de confidência,
Num bosque em que a cantar os ribeiros se movem,
Vão soletrando o Amor da ingênua adolescência,
O ramo a descascar de algum arbusto jovem;

Outras são como irmãs, andam lentas e flavas,
Das rochas através, plenas de aparições,
Onde viu Santo Antão arderem como lavas
Os rubros seios nus de suas tentações;

Outras há que ao fulgor da líquida resina,
No silêncio abissal de velho antro pagão,
Chamam para aliviar a febre que alucina
Baco, o deus que adormece o remorso e a ilusão!

E outras cuja garganta ama os escapulários,
Sabem em sua roupa um chicote esconder,
E misturam na noite, em bosques solitários,
As lágrimas da dor e a espuma do prazer.

Ó monstros do martírio, ó sombras virginais!
Almas a desprezar a pobre realidade,
Com sexo e devoção, o infinito buscais,
Estrangulada a voz de lamento e saudade,

Que na cripta infernal tanto buscou minha alma,
Pobres irmãs a um tempo eu vos amo e respeito
Por vossa sede em vão e por vossa dor calma,
E estas urnas de amor que vos enchem o peito.


Charles Baudelaire [1821-1867]

Poema do livro As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal), lançado originalmente em 1857, em Paris. Seis poemas originais do livro foram alterados, devido à intervenção do poder público, que o acusou de "ultrajar a moral pública", multando-o em 300 francos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

[soneto]



Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-te, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperança me mantenho!
vede que perigosas seguranças:
que não temo contrastes nem mudanças
andando em bravo mar perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde
vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões